segunda-feira, 21 de julho de 2008

Moqueca de antropólogo para índios antropóficos

(Continuando as reflexões sobre a RBA)

Quando eu era pequena eu tinha um chocalho Pataxó. Não sei bem de onde veio, acho que meu pai trouxe no fusca da viagem pra Salvador, no meio minhas de tralhas de bebê, bagagens diversas e gaiolas de curió. Sei que meu pai às vezes chamava a mim e a minha irmã, carinhosamente, de "pataxó", e por essa e outras razões cresci achando que ser índio é uma coisa batuta.
Outra lembrança: minha mãe mencionando os "coitados dos Pataxó de Porto Seguro vendendo artesanato na beira da estrada". Imagino que foi de um deles que adquiriram meu chocalho.

Da primeira vez em que fui a Porto Seguro, na viagem de formatura do colégio, não vi Pataxó nenhum. Dessa vez, já antropóloga, mesmo que tentando ser turista, estava ali em função da RBA. E finalmente vi índios Pataxó, ao vivo e a cores. E foi um troço muito desconfortável.

O o tal pacote de viagem que adquirimos em trocentas prestações no cartão de crédito incluía um passeio turístico pelo centro histórico de Porto Seguro, acompanhado por um guia. Desembarcamos do ônibus em um local apinhado de outros ônibus da tal agência de viagens e demais turistas. Ali, em um pequeno teatro de arena, assistimos a uma apresentação "pra turista ver" de um grupo local de capoeira (ver foto no post anterior sobre a RBA). Volto aos capoeiristas em outro post.

Ao lado do teatro de arena, uma lanchonete e várias barraquinhas vendendo artesanato. Já no centro histórico propriamente dito, havia barraquinhas vendendo comes e bebes "típicos da região", de côco e cacau.

E, em todos os lugares, vários índios Pataxó, sobretudo crianças, com os braços apinhados de colares de sementes variadas, oferecendo-os insistentemente ao consumo turístico. Todos eles bem paramentados de índios, com pinturas, colares de sementes, adereços de penas. O guia imediatamente adverte os turistas vorazes com suas máquinas fotográficas digitais cheias de dentes: pra tirar foto com os Pataxó tem que pagar.

Adiante, o guia nos conta que, quando os portugueses chegaram, Porto Seguro era habitada por ferozes índios antropóficos, ou seja, que comiam gente. (Ele lança um olhar a platéia e pergunta se algum dos antropólogos presentes podia explicar isso melhor. Os antropólogos presentes disfarçam e fazem cara de turista.) Os Pataxó chegaram depois, mas sempre foram pacíficos. hoje vivem em uma reserva naquela praia ali (aponta para a praia). A nós, turistas do sul, resta a tarefa de ajudar os bons selvagens, comprando fotos e artesanato.

Eu não comprei nada, fiquei me sentindo mal de estar no meio desse mercado. É bem provável que os Pataxó estejam bem melhores hoje do que na beira de estrada. Não são mais os coitados sobreviventes, mas empresários mercadores da sua própria cultura - ainda que a 'cultura' que eles vendem seja mais parecida com que o turista espera que um índio seja.

Mas essa característica do turismo contemporâneo, de ser um festim de produção, venda e consumo de identidades sempre me dá uma certa indigestão. Pra mim, identidade não é bom pra comer. Nem pra ser artesanato, nem pra vender nem pra comprar. Por isso mantive uma distância constrangida de todos os pataxó que encontrei.

Enquanto o guia ia falando sobre a chegada dos portugueses e tudo o mais, uma indiazinha, que devia ter uns quatro anos de idade, toda coberta de artesanato que pra ela eram quase brinquedo, fantasia, enfeites bonitos, veio sorrindo e abraçou a perna do guia. Ficou lá, grudada, enquanto o guia ficava meio constrangido, sem saber como afastá-la sem parecer rude.

Nessa hora eu me peguei pensando que o que eu queria era um abraço desses. No abraço, o guia deixou de ser guia, e a indiazinha era só uma criança carinhosa, em busca de carinho. Pra mim, essa menina me deu a melhor lição sobre identidade.

Se identidade é um bem que a gente tem, eu não quero vender, nem comprar. Eu quero é botar fogo nela, em grande estilo potlach. Eu quero me despir dessa armadura, pra poder oferecer meu abraço pra menina.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

All yesterday parties (Bring on the headless horses)

A gente percebe que está velha mesmo quando parte da sua vida começa a virar história.
Perambulando pelo blog de meu velho amigo Santiago, eis que descubro que publicaram um livro sobre o Grind da Lôca (ver o post "A vida louca de Michael Love"). Olhando as fotos do acervo pessoal que ele postou, fiquei meio nostálgica e resolvi postar algumas das minhas também.
Tá certo, nesse meio tempo o Santi virou celebridade, e eu continuo uma ilustre desconhecida (pontinha de inveja básica). Mas me dá um calorzinho reconfortante olhar pra essas fotos antigas, porque no lu
gar de me condenar, meu passado me redime. Tive minha cota de peripécias, mas nunca fui uma porra louca de carteirinha. Não "fiz Londres" na época dourada de fins dos 90-início dos 2000. Não capitalizei minhas aventuras pra criar nenhum tipo de persona pública ou privada. Me diverti, fui feliz, e tenho boas lembranças. Pra mim está bom.
De vez em quando, claro, dá aquela nostalgia dos tempos em que rastejávamos pelos túneis de camurça. Mas percebo que não faria nenhum sentido tentar reproduzir esse tipo de sensação a essa altura do campeonato. Na discotecagem no BDZ dia 10, tive o vislumbre disso: tocar Suede hoje em dia é absolutamente anacrônico. Melhor ficar com as lembranças que compartilho com a meia dúzia de gatos escaldados que viveram essas cousas ao meu lado.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Moqueca de antropólogo (crônicas da RBA)

Eu pensava ter ido à RBA deste ano, em Porto Seguro, pra fazer turismo. Foi exatamente o que aconteceu - embora tenha descoberto que "fazer turismo" seja algo um tanto distante da minha fantasia de colocar as leituras em dia à sombra de coqueiros, sentindo a brisa do mar e regada a água fresca. Essa fantasia, descobri, envolvia também uma crença disfuncional de que ser antropóloga me tranformasse magicamente em um tipo diferente de turista, uma espécie de tapete mágico que pudesse me transportar com relativa segurança por sobre os abismos das fronteiras de desigualdade entre classes, raças, regionalidades. Como se eu pudesse me refastelar em tropicalidade baiana e ainda sair ilesa, pura e inocente.
Do alto da minha fantasia despenquei de boca na realidade social, para descobrir, com enorme desconforto, minha localização específica nessa teia de significados e práticas.

Desconforto 1: Pacote turístico (alças não incluídas)

Fila para embarque no aeroporto, meio que pela saída dos fundos na tal da área de conexão. Vai sonhando com cadeira pra sentar, enquanto se espreme entre grupos de turistas com suas mochilas da agência de viagem. Vôo fretado, gente demais pro corredor exíguo da fila de embarque para conexão. Pelo menos não deu apagão aéreo.
No nosso vôo, uma excursão de aposentados, em sua maioria mulheres, sem marido à tira-colo (viúvas, divorciadas?). Determinados a curtir a "melhor idade" com tudo o que têm direito, animadíssimas., mesmo clima de excursão de escola. Afe. Eu sem um décimo da empolgação dessas senhoras, com a metade da idade delas, pensava com meus botões que não tinha mais idade pra isso.
Uma das mais empolgadas, pele do rosto impecavelmente rejuvenecida por plástica, muitos dourados tilintantes, estampas de oncinha: era praticamente uma cheerleader da excursão. Do seu assento era capaz de produzir uma artilharia de comentários jocosos alvejando os quatro cantos do avião.
Cá com meus botões, me pergunto de onde vem meu incômodo em relação a essa senhora: do receio de me tornar igual a ela, ou de não vir a conseguir ser assim tão à vontade comigo mesma.

***

Desembarcando no minúsculo aeroporto de Porto Seguro, enfrentamos de novo o acotovelamento básico pra pegar bagagens, carrinhos, e descobrir qual era o ônibus da agência de turismo que nos levaria ao hotel.
À despeito da informação dada pelo piloto ainda no vôo, demos de cara com um tempo nublado e uma chuvinha chata. Dentro do ônibus tivemos que ouvir as tradicionais brincadeiras do agente de turismo, a altos brados no microfone: "Na Bahia, chuva é psicológico (sic)." Mas a pior parte, a essa altura do campeonato, era responder com ânimo ao "Bom diiiiiia!".

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Epígrafe: Eu sou Tonto mas eu não seu besta.

Esta é a epígrafe para uma série de posts a respeito das minhas inquietações com a fatídica questão da "identidade social". Aviso aos navegantes que serão reflexões mais pessoais (benditos sejam os blogs) do que acadêmicas.
Essa epígrafe é uma piada que meu pai me contou uma vez.

"O intrépido espadachim Zorro, e seu fiel companheiro pele-vermelha Tonto, cavalgavam pela vastidão desértica de algum lugar entre México e Estados Unidos, quando de repente, viram-se em uma emboscada. Em todo o horizonte pipocaram cabeças de selvagens, pintados para a guerra e sedentos de sangue.
Zorro diz: - É, Tonto, parece que dessa vez nós estamos fodidos.
Tonto: - Nós quem, Cara-pálida?"

quinta-feira, 1 de maio de 2008

No country for old man Eastwood

Esse post já está na geladeira (ou no forno, não sei ao certo) há um bom tempo. Tudo começou quando uma amiga assistiu a No Country for the old men, dos irmãos Coen, e não entendeu nada.
Esse post, então, vai pra ela.
E também para o L. Felipe, meu novo irmão por parte de orientadora.
***
Diferentemente de muita gente por aí, eu saí do cinema gostando do No Country... Não que eu babe ovo pros irmãos Coen, pra mim são uns caras apenas razoáveis, legaizinhos. E esse filme, aparentemente, não tem muita novidade: mais uma (tragi) comédia de erros envolvendo fugas, assassinatos e uma mala com muitos dólares. Mas enquanto em outros filmes a gente percebe uma perspectiva nitidamente individualista, em que as grandes estrelas do enredo são as personagens e suas idiossincrasias bem armadas, arrisco dizer que No country tem uma perspectiva mais sociológica, por assim dizer. (Tanto que a gente nem sabe quem é o personagem principal.)

Já foi dito que o personagem Javier Barden devia ser encarado como um símbolo. Já eu acho que todos os personagens são apenas posições, peões em um tabuleiro de um jogo sem regras nem vencedores. Você pode querer o dinheiro, matar ou morrer por dinheiro até. Ou inventar outros princípios quaisquer pra matar e morrer. Você pode até pensar que em outros tempos havia um lugar em que os princípios dessem algum sentido pra morrer, matar, viver ou sobreviver. Mas é claro que é mentira.
Você inventa que matar um boi com uma pistola de ar comprimido é mais honroso do que com uma marretada. Você pode dizer que matar ou morrer em um duelo vale mais do que atirar em um homem pelas costas. Mas a vida é uma chama trêmula pra quem qualquer vento é brutal.
O cowboy que atravessa as intempéries preservando o fogo, Prometeu do velho oeste, é um sonho.

Mas peraí, o que é que o Clint tem a ver com tudo isso? Claro que tudo. Na minha leitura, é ele, a epítome do bom cowboy, o símbolo em questão na narrativa do No country... O cowboy como uma das narrativas fundadoras do herói americano. Ele é a sombra fantasmagórica que paira por todo o filme, o retrato idealizado do pai morto do xerife, o mito que Llewelyn encarna do momento em que surge na tela pela primeira vez, na seqüência da caçada, até seu triste e arbitrário fim.

Não é à toa que o filme começa em Rio Grande e termina em El Paso. Para o cowboy americano, é uma espécie de peregrinação à terra santa.

O cowboy americano é o "man that makes a difference". Individualista, com sua astúcia, persistência e dureza, e um senso individual de justiça, ele se dá bem no final e conquista a mocinha. Como todo bom membro da National Rifle Association, ele está sempre disposto a usar sua destreza no gatilho para salvar a própria pele, e eventualmente a de outros que, como ele, encarnam o verdadeiro espírito americano. Pois é do sangue e do suor desses homens - e não de burocratas, políticos, banqueiros, mexicanos ou índios - que brota o magnífico reino dos Estados Unidos da América, certo? Como o patriota Mel Gibson e sua implacável machadinha, que bem poderia estar entalhada com os dizeres "In God we trust".

Pena que o magnífico reino não seja tão magnífico assim. A escolha de uma narrativa descentrada dos personagens é o recurso para lançar um olhar mais distanciado do ponto de vista heróico. O mocinho-cowboy da história tem uma morte tão besta que se passa longe das câmeras. Nada menos heróico.
Tão pouco heróico quanto o xerife Tommy Lee Jones, meio cansado e meio acovardado, hesitante em toda a narrativa. Tão indigno quanto o destino do tio Ellis, que fora xerife em seus dias de glória, e que vive sozinho, deficiente, em uma espelunca. Tio Ellis aponta para a futilidade (e vaidade) do personagem de Tommy Lee, que imagina ser capaz de evitar o inevitável desfecho da história de Llewelyn.
Quando o cowboy acorda do sonho, percebe que seu legado é só a brutalidade.

segunda-feira, 17 de março de 2008

All these things that I've done


"Another head aches, another heart breaks
I am so much older than I can take
And my affection, well it comes and goes"


À primeira vista eram muitas caras e bocas, muita maquiagem e gel no cabelo do Brandon Flowers (e esse nome, OMG!) pra que eu considerasse que The Killers fosse digna de mais atenção do que a que geralmente dispenso a bandinhas emo em geral.
(aliás, o que são esses rótulos? EMO, From the UK?! Santi, Camila, não fomos todos um pouco de tudo isso há mais de uma década atrás?!) Tá bom, aprendi que The Killers NÃO é EMO.

E graças a Vanessinha, me rendi aos assassinos. Culpa do clipe Tranqüilize, com a fodástica participação do Lou Reed com estilo Boris Karloff. Na cavernosa voz do Lou tem uma tristeza daquelas fundas, que ressoa na medula dos ossos da gente, uma tristeza de morte estilo Kurt Cobain no acústico.

De grão em grão o tempo preeenche, sete palmos de profundidade. A distância entre a culpa e a história.

"silently reflection turns my
world to stone
patiently correction leaves us all alone
and sometimes I'm a travel man but tonight
my engines fail me
I still hear the children playing
Dead beat dancers come to us and stay
cause I don't care where you been
and I don't care what you seen
We're the ones who still believe
and we're looking for a page
in that lifeless book of hope"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Nem lá, nem cá


Não estou nem aí.
Aqui tampouco.
Também perdi meu quando.
Meu barco à vela à deriva nos vastos oceanos da Interlândia, esperando a calmaria passar in between days. Os lirós bucaneiros e as sereias dos dentes verdes foram passar o carnaval na Ilha de Safo (ou de Itaparica, não sei bem, não me mandam mais postais, nem email, nem scrap no orkut).
E não estou nem aí. Não tenho saudades, e se pudesse iria pra outra ilha, e não no Carnaval.
Quando finalmente fui pra Londres a Londres dos meus sonhos tinha morrido, bem como quem eu era quando sonhava Londres. E ficou tudo bem.
quando finalmente tive coragem de pescar e tirar o peixe do anzol, olhei pros olhos vivos do peixe, pro sangue vivo do peixe saindo do buraco do anzol e pro brilho vivo das escamas do peixe saindo na minha mão. Devolvi o peixe pra água.
Fora d'água basto eu.
E quando eu era criança eu sempre sonhava com peixes nadando pelo ar à minha volta.