(Continuando as reflexões sobre a RBA)
Quando eu era pequena eu tinha um chocalho Pataxó. Não sei bem de onde veio, acho que meu pai trouxe no fusca da viagem pra Salvador, no meio minhas de tralhas de bebê, bagagens diversas e gaiolas de curió. Sei que meu pai às vezes chamava a mim e a minha irmã, carinhosamente, de "pataxó", e por essa e outras razões cresci achando que ser índio é uma coisa batuta.
Outra lembrança: minha mãe mencionando os "coitados dos Pataxó de Porto Seguro vendendo artesanato na beira da estrada". Imagino que foi de um deles que adquiriram meu chocalho.
Da primeira vez em que fui a Porto Seguro, na viagem de formatura do colégio, não vi Pataxó nenhum. Dessa vez, já antropóloga, mesmo que tentando ser turista, estava ali em função da RBA. E finalmente vi índios Pataxó, ao vivo e a cores. E foi um troço muito desconfortável.
O o tal pacote de viagem que adquirimos em trocentas prestações no cartão de crédito incluía um passeio turístico pelo centro histórico de Porto Seguro, acompanhado por um guia. Desembarcamos do ônibus em um local apinhado de outros ônibus da tal agência de viagens e demais turistas. Ali, em um pequeno teatro de arena, assistimos a uma apresentação "pra turista ver" de um grupo local de capoeira (ver foto no post anterior sobre a RBA). Volto aos capoeiristas em outro post.
Ao lado do teatro de arena, uma lanchonete e várias barraquinhas vendendo artesanato. Já no centro histórico propriamente dito, havia barraquinhas vendendo comes e bebes "típicos da região", de côco e cacau.
E, em todos os lugares, vários índios Pataxó, sobretudo crianças, com os braços apinhados de colares de sementes variadas, oferecendo-os insistentemente ao consumo turístico. Todos eles bem paramentados de índios, com pinturas, colares de sementes, adereços de penas. O guia imediatamente adverte os turistas vorazes com suas máquinas fotográficas digitais cheias de dentes: pra tirar foto com os Pataxó tem que pagar.
Adiante, o guia nos conta que, quando os portugueses chegaram, Porto Seguro era habitada por ferozes índios antropóficos, ou seja, que comiam gente. (Ele lança um olhar a platéia e pergunta se algum dos antropólogos presentes podia explicar isso melhor. Os antropólogos presentes disfarçam e fazem cara de turista.) Os Pataxó chegaram depois, mas sempre foram pacíficos. hoje vivem em uma reserva naquela praia ali (aponta para a praia). A nós, turistas do sul, resta a tarefa de ajudar os bons selvagens, comprando fotos e artesanato.
Eu não comprei nada, fiquei me sentindo mal de estar no meio desse mercado. É bem provável que os Pataxó estejam bem melhores hoje do que na beira de estrada. Não são mais os coitados sobreviventes, mas empresários mercadores da sua própria cultura - ainda que a 'cultura' que eles vendem seja mais parecida com que o turista espera que um índio seja.
Mas essa característica do turismo contemporâneo, de ser um festim de produção, venda e consumo de identidades sempre me dá uma certa indigestão. Pra mim, identidade não é bom pra comer. Nem pra ser artesanato, nem pra vender nem pra comprar. Por isso mantive uma distância constrangida de todos os pataxó que encontrei.
Enquanto o guia ia falando sobre a chegada dos portugueses e tudo o mais, uma indiazinha, que devia ter uns quatro anos de idade, toda coberta de artesanato que pra ela eram quase brinquedo, fantasia, enfeites bonitos, veio sorrindo e abraçou a perna do guia. Ficou lá, grudada, enquanto o guia ficava meio constrangido, sem saber como afastá-la sem parecer rude.
Nessa hora eu me peguei pensando que o que eu queria era um abraço desses. No abraço, o guia deixou de ser guia, e a indiazinha era só uma criança carinhosa, em busca de carinho. Pra mim, essa menina me deu a melhor lição sobre identidade.
Se identidade é um bem que a gente tem, eu não quero vender, nem comprar. Eu quero é botar fogo nela, em grande estilo potlach. Eu quero me despir dessa armadura, pra poder oferecer meu abraço pra menina.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
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